sexta-feira, 10 de novembro de 2017

EU, ETIQUETA!


imagem - net


Em minha calça está grudado um nome que não é meu
de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso,
abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda,
ainda que a moda seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser eu
que antes era e me sabia tão diverso de outros, tão mim mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro, em língua nacional ou em qualquer língua (qualquer, principalmente).
E nisto me comparo, tiro glória de minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago para anunciar
para vender em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta global
no corpo que desiste de ser veste e sandália de uma essência tão viva
independente, que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam
e cada gesto, cada olhar cada vinco da roupa
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrine me tiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como signo de outros
objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim,
tão orgulhoso de ser não eu,
mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.


 Carlos Drummond de Andrade

"Já não me convém o título de homem...
Eu sou a coisa. coisamente"

Infelizmente, uma grande verdade, amigos!

Emília Pinto

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

SIMPLICIDADE





 Queria, queria
 Ter a singeleza
 Das vidas sem alma
 E a lúcida calma
 Da matéria presa.

 Queria, queria
 Ser igual ao peixe
 Que livre nas águas
 Se mexe;

 Ser igual em som,
 Ser igual em graça
 Ao pássaro leve
 Que esvoaça...
Tudo isso eu queria!
 (Ser fraco é ser forte).
 Queria viver
 E depois morrer
 Sem nunca aprender A gostar da morte.


 Pedro Homem de Mello, in "Estrela Morta"



Conheço Pedro Homem de Mello, mas, confesso, desconheço por completo a sua obra. Gostei muito deste poema, embora sejam  belos todos os outros que encontrei na minha pesquisa. Foi difícil a escolha! Espero que gostem!

 
Quem Foi?


 De raízes minhotas, era filho de António Homem de Melo de Macedo e de sua mulher, Maria do Pilar da Cunha Pimentel Homem de Vasconcelos, além de sobrinho de Manuel Homem de Melo da Câmara, 1.º Conde de Águeda. O seu pai pertenceu ao círculo íntimo do poeta António Nobre.
 Criado numa família que lhe incutiu ideais monárquicos, católicos e conservadores, as raízes do seu lirismo bem português mergulham na própria vivência íntima e na profunda sintonia com o povo, cuja alma se lhe abria através do folclore, tendo por cenário a paisagem do Minho.

 Iniciou o curso de Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, acabando por se licenciar na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, em 1926. Tendo iniciado a sua carreira como advogado,optou posteriormente por se dedicar ao ensino do Português em escolas técnicas do Porto (Mouzinho da Silveira e Infante D. Henrique), tendo sido diretor da Mouzinho da Silveira


Nasceu no Porto em 6 de Setembro de 1904 e faleceu a 5 de Março de 1984




Emilia Pinto